Antropologia Sensorial - Resgatando o poder sensorial de nossas experiências
Proposta: Este curso é um convite para desaprender o que acreditamos saber sobre nossos sentidos, para questionar a arquitetura de nossa percepção. Desafiaremos a noção ocidental dos "cinco sentidos" como meros receptores biológicos, janelas passivas para um mundo exterior já dado. Em vez disso, propomos uma ideia mais radical e poética: a de que perceber é uma prática, uma habilidade afinada como um instrumento, profundamente moldada pela cultura em que vivemos.
Conteúdo: Nossos corpos não apenas sentem o mundo; eles são ensinados a senti-lo de maneiras particulares. Como argumenta a antropóloga Constance Classen, em uma frase que servirá como nosso guia: "a percepção sensorial é um ato cultural, tanto quanto físico". Juntos, exploraremos como diferentes sociedades constroem mundos de sentido distintos, sintonizando, hierarquizando e misturando os sentidos de maneiras que podem nos parecer, à primeira vista, extraordinárias.
FORMA | O curso mescla discussões teóricas, exercícios práticos e estudos de casos que buscam exercitar nossos sentidos e e ampliar nossa percepção do real.
FORMATO | 30 horas = 10 encontros online e ao vivo
PLANO DE AULAS
Aula 1: Maneiras de Sentir - Desconstruindo o Sensorium Ocidental
Nesta primeira aula, começaremos por desestabilizar o terreno familiar de nossa própria percepção. O problema central que enfrentamos é que nossos pressupostos sensoriais são invisíveis para nós mesmos; eles parecem naturais, biológicos, universais. Antes de podermos explorar outros mundos, devemos primeiro escavar os alicerces do nosso. Esta aula irá, portanto, desmantelar o modelo tradicional dos cinco sentidos, mostrando-o não como uma verdade inata, mas como uma construção cultural específica. Criticaremos a hegemonia da visão — o "visualismo" — no pensamento ocidental e introduziremos o conceito fundamental de que cada cultura possui seu próprio "sensorium", sua própria ordem e hierarquia sensorial, que molda a experiência coletiva da realidade.
Aula 2: A História dos Sentidos - De Platão a Marx e a Virada Sensorial
Por que nossa cultura "vê" o conhecimento e "sente" a emoção? Para responder a essa questão, devemos traçar a genealogia de nossas hierarquias sensoriais. Esta aula fará um percurso histórico, desde a filosofia clássica até a crítica materialista, para mapear como os sentidos foram classificados, disciplinados e, por vezes, celebrados no pensamento ocidental. Em seguida, mostraremos como, no final do século XX, uma "virada sensorial" na academia emergiu como uma resposta crítica a essa longa herança, um movimento que buscou revalorizar o sensível como objeto de estudo histórico, sociológico e geográfico.
Aula 3: A Política da Percepção - Hierarquias Sensoriais e Sociais
A tese central desta aula é direta e poderosa: o perceptual é político. As hierarquias de sentidos que estudamos na aula anterior não são neutras; elas frequentemente se alinham, refletem e reforçam as hierarquias sociais de gênero, classe e raça. Os conflitos sobre o uso do espaço público, a definição do que é "bom gosto" ou do que é "poluente" são, em sua essência, conflitos sensoriais. Exploraremos como o controle e a disciplina dos sentidos servem como ferramentas de poder e como grupos subalternos resistem criando seus próprios "sensórios alternativos".
Aula 4: Etnografia Sensorial - Métodos para "Sentir Junto"
Se a percepção é culturalmente moldada, como pode o antropólogo, um forasteiro sensorial, verdadeiramente compreender um mundo que cheira, soa e se sente de forma tão diferente? A antropologia tradicional, com sua forte dependência da observação visual ("observação participante") e da entrevista verbal, corre o risco de perpetuar o "logocentrismo" e o "verbocentrismo" que criticamos. A resposta a esse desafio reside em uma revolução metodológica: a Etnografia Sensorial. É uma abordagem que busca ir "além do texto" para engajar o corpo e a totalidade dos sentidos do pesquisador no trabalho de campo, propondo uma forma de conhecimento mais corporificada e imersiva.
Aula 5: A Sensescape Urbana - Experienciando a Cidade
A cidade não é apenas uma coleção de edifícios e ruas; é uma sensescape — uma paisagem vibrante de sons, imagens, cheiros, texturas e sabores que molda nossa experiência cotidiana. Nesta aula, analisaremos criticamente a experiência sensorial da cidade moderna. Contrastaremos a "privação sensorial" imposta por certos modelos de planejamento, que privilegiam a ordem visual em detrimento da riqueza da vida sensível, com a complexa e, por vezes, conflituosa vida sensorial que emerge organicamente nos espaços urbanos.
Aula 6: Intersensorialidade e Sinestesia - A Mistura dos Sentidos
Até agora, tratamos os sentidos como canais distintos. Nesta aula, faremos esses rios paralelos transbordarem. Exploraremos a intersensorialidade: a inter-relação, a colaboração e a transmutação de um sentido em outro. A sinestesia, a experiência de "ouvir cores" ou "ver sons", é sua forma mais conhecida, mas mostraremos que a mistura dos sentidos é a norma, e não a exceção, da experiência humana. Investigaremos suas diversas manifestações — da congênita à cultural, da linguística à induzida — para descobrir que a percepção não é uma orquestra de instrumentos isolados, mas uma cacofonia sinestésica onde as cores têm som e os sons têm sabor.
Aula 7: A Cultura do Gosto - Alimentação, Classe e Lugar
O gosto é muito mais do que uma função biológica da língua. É um dos nossos sentidos mais sociais e culturalmente codificados. Esta aula tratará o paladar como um sistema cultural complexo, um meio poderoso de conectar pessoas, memórias e identidades a lugares específicos. Analisaremos não apenas o que comemos, mas como, onde e com quem comemos, e o que essas práticas revelam sobre identidade, poder e pertencimento.
Aula 8: Pesquisa-Criação e Museologia Sensorial - Além da Representação
Depois de estudar os mundos dos sentidos, como podemos começar a criá-los? Esta questão nos leva ao cruzamento da arte com a antropologia. Nesta aula, exploraremos a "pesquisa-criação", uma abordagem que funde a prática artística com a investigação acadêmica, propondo a "reconstrução sensorial como uma forma de conhecimento". Fazer, construir e performar tornam-se parte do processo de pesquisa. Veremos como essa mesma sensibilidade está transformando a museologia, que se afasta da exibição puramente visual para criar experiências multissensoriais.
Aula 9: O Sensorium Mais-que-Humano - Robôs, Ciborgues e a Sentience Relacional
Até agora, nosso foco tem sido o sensorium humano. Nesta aula, vamos expandir nossas fronteiras e desafiar a linha divisória entre o vivo e o não-vivo, o humano e a máquina. O problema que enfrentamos é nossa suposição de que a sentience — a capacidade de sentir — é uma propriedade intrínseca de um organismo biológico. Vamos propor uma alternativa: a de que a sentience é uma qualidade relacional e performática que emerge na interação. Investigaremos como os seres humanos estão estendendo seus próprios sensórios, nos forçando a repensar o que significa ser uma criatura senciente.
10. Aula 10: Conclusão - O Futuro dos Sentidos em uma Sociedade Hiperestética
Chegamos ao final de nossa jornada. Ao longo deste curso, aprendemos que nossos sentidos são plásticos, moldados pela cultura; políticos, implicados em relações de poder; e poéticos, capazes de criar mundos de significado. Nesta aula final, vamos sintetizar as lições e lançar um olhar para o futuro do nosso sensorium. Vivemos na "economia da experiência" da modernidade tardia, uma sociedade hiperestética onde os sentidos são cada vez mais gerenciados, estimulados e mercantilizados, o que exige de nós uma consciência crítica e criativa de nossas próprias "maneiras de sentir".
LOCAL | Online, ao vivo, via VÍDEO CONFERÊNCIA (as aulas são gravadas para garantir que você não perca nada.)
QUANDO | de 05 de maio a 04 de junho de 2025, segundas e quartas das 19h às 22h.
INVESTIMENTO | R$ 1.880 (Curso completo) / R$ 400 (Aula avulsa)