Antropologia Sensorial - Resgatando o poder sensorial de nossas experiências

Proposta: Este curso é um convite para desaprender o que sabemos sobre nossos sentidos, para questionar a arquitetura de nossa percepção. Desafiaremos a noção ocidental dos "cinco sentidos" como meros receptores biológicos, janelas passivas para um mundo exterior. Em vez disso, propomos uma ideia radical e poética: a de que perceber é uma prática, uma habilidade afinada como um instrumento, profundamente moldada pela cultura em que vivemos. Ou seja, aquilo que vemos, ouvimos, tocamos, cheiramos e saboreamos é forjado pelas histórias, valores, poderes e modos específicos de habitar o mundo. Ao deslocar o foco da razão abstrata para o corpo vivido, o curso propõe uma reflexão crítica sobre como sentimos, conhecemos, convivemos e existimos no mundo.

Conteúdo: Ao longo das aulas, investigaremos como os sentidos foram hierarquizados na história ocidental e como essas hierarquias atravessam relações de poder, desigualdade e pertencimento. Exploraremos etnografias que revelam outros modos de ver, ouvir, tocar, cheirar e saborear, questionando a centralidade da visão e abrindo espaço para cosmologias acústicas, olfativas e táteis. Discutiremos métodos de pesquisa sensorial, conflitos perceptivos na vida urbana, práticas alimentares, memória, identidade e sinestesia cultural. O percurso culmina em uma reflexão sobre o empobrecimento sensorial da vida moderna e a necessidade de reencantar nossa relação com o mundo.

FORMA | Este não é um curso apenas para ser compreendido, mas para ser experienciado. As aulas combinam reflexão teórica, estudos etnográficos, exercícios sensoriais e experimentações corporais. O conhecimento aqui não se limita ao texto ou à imagem: ele passa pelo som, pelo cheiro, pelo gesto, pela presença. Mais do que aprender sobre os sentidos, o curso convida a reaprender a sentir, cultivando uma atenção mais ética, crítica e sensível aos corpos, aos ambientes e às formas de vida que nos cercam.

FORMATO | 30 horas = 10 encontros online e ao vivo

PLANO DE AULAS

  • Aula 1: Nada do que Você Sente é Natural
    Cultura, corpo e a invenção da percepção

    O curso se inicia com um gesto importante: distanciar-se da nossa própria maneira de perceber o mundo. Esta aula parte da ideia de que nossos sentidos não são dados biológicos neutros e universais, mas formas culturalmente aprendidas de organizar a experiência. Neste contexto, os cinco sentidos sobre os quais edificamos nossa forma de perceber o mundo não passa de uma convenção, tal qual a hegemonia da visão e sua relação com o conhecimento. Ao erodir as certezas sobre nossa forma de sentir e esta no mundo, a aula abre espaço para discutir o conceito de sensorium que sugere que cada cultura organiza e hierarquiza os sentidos de maneira própria. Assim, o propósito desta primeira aula é desestabilizar e desnaturalizar nossa percepção. Só assim, nos tornamos capazes de imaginar outros modos de habitar o mundo.

  • Aula 2 – Como Aprendemos a Ver o Mundo (e a Ignorar os Outros Sentidos)
    Uma genealogia das hierarquias sensoriais

    Por que nossa cultura "vê" o conhecimento e "sente" a emoção? Esta aula traça uma breve genealogia das hierarquias sensoriais no pensamento ocidental. Da filosofia clássica ao Iluminismo, passando pela crítica materialista, veremos como os sentidos foram classificados, disciplinados e moralizados. O objetivo não é apenas reconstruir essa história, mas revelar seus efeitos duradouros sobre ciência, política, educação, tecnologia e vida cotidiana. A aula se encerra apontando para uma virada sensorial contemporânea, que recoloca o corpo e o sensível no centro da experiência social.

  • Aula 3 – Hierarquia sensorial
    Quando sentir se torna uma questão de classe, gênero e controle.

    Nesta aula, partimos de uma tese simples: o sensorial é político. O que é considerado barulho, mau cheiro, excesso, sujeira ou bom gosto nunca é neutro e revela relações de poder profundamente enraizadas. As hierarquias sensoriais reforçam desigualdades de classe, gênero e raça, regulando corpos e territórios. Exploraremos como os sentidos são controlados, higienizados e normatizados, e como também podem ser usados como formas de resistência perceptiva, nas quais grupos subalternizados resistem e produzem outros regimes de sensibilidade, pertencimento e expressão.

  • Aula 4 – Aprender com o Corpo: Como Sentir Junto Pode Ser um Método
    Etnografia sensorial e modos de incorporar o conhecimento

    Se a percepção é culturalmente moldada, como pesquisar mundos sensoriais distintos do nosso? Esta aula apresenta a etnografia sensorial como uma inflexão metodológica aos limites da observação e da linguagem. Ao enfatizar o corpo, a imersão e a experiência, essa abordagem propõe um conhecimento corporificado, baseado na presença e na afetação. A aula quebra com um modelo verbocentrico de pesquisa para se abrir ao universo do sensível, no qual o pesquisador sai do lugar de observador imparcial e se deixa ser invadido por uma série de estímulos sensoriais que o aproxima do outro. O conhecimento, surge, por tanto, a partir da consonância e confluência do “sentir junto.”

  • Aula 5 – Vivemos em um Mundo de Imagens Demais
    O domínio do olhar e a transformação do mundo em espetáculo.

    A modernidade consolidou a visão como o sentido da razão, da objetividade e do controle. Nesta aula, discutiremos o “visualismo” a partir da perspectiva renascentista e iluminista, usando a arte e a ciência como exemplos de um olhar que separa, enquadra e domina. Em diálogo com o conceito de “tourist gaze,” discutiremos como paisagens, culturas e até experiências íntimas se transformam em imagens consumíveis, tensionando a relação entre presença, mediação e distanciamento.

  • Aula 6 – Da harmonia ao ruído
    Como o som constrói identidades, paisagens e formas de saber.

    O som não é um pano de fundo da vida social. Ele age, organiza e dá ritmo ao mundo. Esta aula parte da compreensão de que a audição constrói realidades, define pertencimento e transforma espaços em lugares carregados de memória, afeto e significado. Sons moldam identidades coletivas, regulam relações e orientam formas específicas de conhecimento. Ao explorar cosmologias acústicas, paisagens sonoras e práticas cotidianas de escuta, veremos como o som pode tanto gerar coesão quanto conflito, harmonia ou ruído. Nesta aula abordaremos o som como uma espécie de maestro da experiência social capaz tanto de colocar nossa experiência coletiva em harmonia, quanto desconjuntá-la ao gerar . A audição aparece aqui como arquiteta da experiência social, capaz de organizar memórias, afetos e dar materialidade a intuição.

  • Aula 7 – A Pele que nos habita
    Toque, proximidade e ética do contato.

    A pele é mais do que limite do corpo, ela é interface entre o subjetivo e objetivo. É no toque que damos contornos ao senso de presença, proximidade, cuidado e vulnerabilidade. Nesta aula, refletiremos como o toque é culturalmente regulado, autorizado ou rechaçado, atravessando questões de gênero, saúde e afeto. Pensar o tato é pensar uma ética do encontro entre corpos, marcada tanto pelo risco quanto pela responsabilidade.

  • Aula 8 – Cheiros que Marcam a Vida
    Olfato, memória e rituais.

    O olfato ocupa um papel central em rituais, memórias e classificações morais. Por sua natureza difusa e instável, os cheiros são especialmente eficazes para marcar transições e liminaridades, como nascimento, sexualidade, doenças e morte. Esta aula explora como os odores participam da construção de noções de pureza, perigo, pertencimento, anunciação e exclusão, revelando uma política sensorial complexa e ramificada, central na organização de nossas experiências, mas ainda assim, permanece enredado em paradoxos, relegado historicamente ao domínio animal, instintivo e inferiorizado.

  • Aula 9 – O Gosto Não é Pessoal
    Comer, pertencer e absorver

    Comer é uma constelação sensorial, uma atividade que engaja simultaneamente as modalidades gustativa, tátil, olfativa, proprioceptiva e térmica. Por conta disso, o paladar é a forma mais direta e profunda de se experimentar uma cultura.. O paladar organiza relações, marca identidades e estrutura rituais em torno de experiências feitas para serem compartilhadas. Nesta aula, o paladar será abordado como uma linguagem cultural, na qual sabores comunicam valores, memórias e cosmologias. Degustar, aqui, é também interpretar e pertencer.

  • Aula 10 – Reencantar os sentidos
    Sensorialidade, ancestralidade e presença como forma de se reconectar com o mundo.

    Ao fixar a palavra no papel, a cultura ocidental deslocou a atenção do mundo sensível para um universo de conceitos autônomos, enfraquecendo a escuta da terra, dos animais, do clima, dos outros. Isso se intensifica ainda mais com o espaço que a tecnologia vem ganhando nesta mediação. Na última aula do curso, refletimos sobre a importancia de reacender nossos sentidos como uma forma de reaprender a habitar o mundo com o corpo inteiro, restituindo aos sentidos seu papel político e ontológico. Finalizamos esta jornada, portanto com um chamado para que possamos nos desvencilhar de uma relação abstrata da realidade e voltar a ouvir o murmúrio do chão que pisamos.. Reencantar os sentidos é um convite a presença, consciência e cuidado.

LOCAL | Online, ao vivo, via VÍDEO CONFERÊNCIA (as aulas são gravadas para garantir que você não perca nada.)

QUANDO | de 05 de maio a 04 de junho de 2026, segundas e quartas das 19h às 22h.

INVESTIMENTO | R$ 1.880 (Curso completo) / R$ 400 (Aula avulsa)