Tem uma frase do Mia Couto que, quando a li pela primeira vez, fiquei preso nela por dias. Não me furto a repeti-la sempre que me sopra uma oportunidade. A frase é a seguinte:
“Sou biólogo e viajo muito pela savana do meu país. Nessas regiões encontro gente que não sabe ler livros. Mas que sabe ler o seu mundo. Nesse universo de outros saberes, sou eu o analfabeto. Não sei ler sinais da terra, das árvores e dos bichos. Não sei ler nuvens, nem o prenúncio das chuvas. Não sei falar com os mortos, perdi contacto com os antepassados que nos concedem o sentido da eternidade. Nessas visitas que faço à savana, vou aprendendo sensibilidades que me ajudam a sair de mim e a afastar-me das minhas certezas.”
Acho que ela traz contornos importantes para a compreensão do trabalho de um pesquisador, afinal, assumir-se "analfabeto" de outros saberes é o melhor ponto de partida para uma investigação. Quanto mais conscientes dos limites de nossa compreensão, mais abertos e dispostos estaremos a aprender com o outro.
Reconhecer que não sabemos de algo é combustível para nossa curiosidade. A estranheza do desconhecido nos enche de dúvidas, perguntas e reflexões que abalam nossas verdades. No entanto, diante de uma cultura que supervaloriza o conhecimento, mas dá pouco espaço para os processos de aprendizagem, assumir que não sabemos muitas vezes nos vulnerabiliza e expõe.
Atualmente, organizamos nossa identidade em torno do que estudamos. Apresentamo-nos uns aos outros a partir de nossa formação. Exibimos certificados e diplomas nas paredes, lustramos nossos currículos com cursos e especialização. Julgamos o outro por seu grau de escolaridade e somos rápidos em esconder nossa própria iliteracia sob camadas rasas de informação recheadas de certezas vãs.
Quando ser é saber, a dúvida e o erro tornam-se desvios indesejáveis que precisam ser camuflados ou refutados. O medo da ignorância nos deixa apegados a nossas opiniões, corrói nossa curiosidade e nos torna indiferentes à experiência do outro.
Num mundo em que somos remunerados para trazer respostas e soluções, onde as competências se organizam em cargos e hierarquias, o conhecimento vai se tornando autômato, algo que não surge da perplexidade, do encontro com o estranho, mas de fluxos e processos responsáveis por homogeneizar o pensamento e garantir repetição, replicação, controle e previsibilidade.
Talvez seja por isso que resumimos o conhecimento à educação formal. É como se, ao sair das salas de aula, não nos restasse mais nada a aprender. E assim, limitamos o aprendizado, esquecendo que há muito mais inscrito na terra, nos corpos, nas ruas e nas experiências cotidianas que nos livros. Saber ler o mundo, como Mia nos alerta, é uma forma de alfabetização que escapa às instituições.
Ao passo que intelectualizamos os saberes, nos tornamos analfabetos de experiências. Acumulamos anos de estudo, mas desaprendemos a escutar o mundo. Sabemos “sobre” muitas coisas, mas não sabemos “a partir" das coisas. Essa dissociação entre conhecimento e vivência é um dos traços mais graves do empobrecimento epistemológico atual.
Como já nos alertou Paulo Freire, antes de ler a palavra, é preciso aprender a ler o mundo. A alfabetização, portanto, não é apenas técnica, é existencial. O que está em jogo é a capacidade de interpretar a própria experiência e situar-se na história. Ao contrário do que supõe a pedagogia convencional, não se contrata, acumula ou adquire conhecimento. Ele surge do diálogo, da fricção de perspectivas, da transformação mútua dos encontros.
Esta ai a diferença entre dado e conhecimento. O dado pode ser acumulado, parametrizado, organizado e categorizado, mas se encerra em si. Nunca leva a nada além do que expressa. O conhecimento, por sua vez se transforma, evolui, se contradiz, convida à duvida e se impregna em nossa relação com o mundo.
Não há sujeito observador apartado do mundo observado, como os dados sugerem. É preciso que haja fluxo, continuidade, um campo relacional em que o conhecimento emerge como efeito do contato, onde a realidade resiste à nossa vontade e não é manipulada por ela
O pensamento é um prolongamento da experiência. O ato de pensar não nasce da certeza, mas da estranheza. Aprender é experimentar, errar, observar, ajustar, reconfigurar. A educação, nesse sentido, deve ser indissociável da vida, da prática, da materialidade dos contextos.
É um equívoco chamar aprendizagem computacional de inteligência. Não há inteligência que seja artificial tal qual não existe saber abstrato, desencarnado, descolado da experiência. Mais do que tecnologias, para solucionar as multiplas crises que a realidade nos impõe precisamos reaprender a escutar, a sentir, a duvidar . A reconhecer, com humildade, que, enquanto abraçamos a expansão da capacidade computacional, estamos perdendo nossa capacidade perceptual.
Não podemos assistir passivamente nossas experiências serem sistematicamente reduzidas a dados, padrões e modelagens. Estar no mundo, imergir em múltiplas realidades, se abrir a novos saberes não pode ser substituído por gráficos e dashboards. A singularidade da vivência não pode dar lugar à regularidade estatística. O gesto sensível do pesquisador não pode se tornar irrelevante frente à promessa de precisão algorítmica.
Esse deslocamento que estamos vendo no mercado de pesquisa não é apenas metodológico, mas ontológico. Revela uma profunda desconfiança na experiência humana como fonte legítima de conhecimento. O conhecimento, nesse modelo, não é mais um processo, é um produto. Não nasce do encontro, mas da extração. As pessoas são tratadas como fonte de dados, e não como interlocutores que pensam, sentem, interpretam, resistem.
Estamos vivendo um epistemicídio silencioso: um assassinato simbólico das formas de saber que nascem do corpo, do território, da prática cotidiana. O saber experiencial é desqualificado como subjetivo, parcial, ineficiente, quando na verdade ele é o que há de mais radical na produção de sentido.
É urgente resgatar o valor do aprendizado situado, sensorial, relacional. A antropologia neste sentido, nos reconecta com a epistemológia do sensível, nos ensina que para ler o mundo é preciso habita-lo em vez de representá-lo, a escuta-lo no lugar de sintetiza-lo. Por fim, a antropologia nos lembra que só desenha um bom mapa quem se permite perder-se no território.
Para sairmos de nós e nos afastarmos de nossas certezas precisamos reaprender a não saber, suspender o juízo, aceitarmos ser transformados pelo encontro. Conhecimento nos exige comunhão e não controle. E essa comunhão só é possível se reconhecermos o outro como portador de um saber legítimo e inestimável, mesmo (ou principalmente) quando esse saber estrapola nossa compreensão.
Nossa curiosidade não surge da fome de respostas, mas da sede por conexão. É desse empirismo radical, da experiência reflexiva, desse aprendizado vivo que surge qualquer inteligência. O mundo não é um objeto de estudo, mas um território de troca. E, para lê-lo em sua plenitude, talvez seja preciso, antes, desaprender a ler como fomos ensinados, só com palavras.