"Futilidades vãs, como parecem, as roupas têm funções mais importantes do que simplesmente nos aquecer. Elas mudam nossa visão do mundo e a visão do mundo sobre nós." – Virginia Woolf, 1928


É assim, de maneira direta e pontiaguda, que Virginia Woolf reflete sobre o papel cultural das roupas, as ambiguidades da identidade de gênero e suas relações com a condição humana, em um de meus romances favoritos dela, Orlando.

Segundo essa reflexão, a forma como nos vestimos interfere na experiência que os outros têm de nós. Essa capacidade de criar uma impressão explica nossa dedicação às roupas.

A moda é parte de um grande mapa social, um alfabeto de significados em que a composição final é desenhada dentro de moldes ideológicos de referências mútuas.

É em seu papel cultural, na sua capacidade de transmitir uma mensagem e causar uma impressão, que as roupas ganham caráter político, principalmente diante de um cenário esvaziado de discussões e propostas, marcado por cortes e conteúdos de rápida absorção.

No episódio do dia 13.09.2024 do podcast Café da Manhã, a consultora Thais Farage faz uma análise muito interessante sobre como as roupas vêm ganhando novos contornos no debate político, o papel que desempenham nas questões de gênero, e como a direita no Brasil tem tirado mais proveito de seu caráter simbólico do que a esquerda.

Embora a discussão tenha girado mais em torno dos candidatos na corrida eleitoral municipal, acho importante destacar o uso político que a deputada Erika Hilton vem dando à moda.

Além de atrair a atenção de um eleitorado mais jovem, sua forma de se vestir marca sua posição como mulher negra e trans em um espaço de poder dominado pela misoginia, transfobia e falta de diversidade. Ao assumir a moda como um ato político, ela traz uma luz inteiramente nova para esse debate.

Vale muito ouvir este episódio, que não deixa de ser uma aula sobre #moda #politica #antropologiavisual e #culturamaterial.

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