Mais do que um imóvel, um lugar onde reunimos e dispomos uma série de objetos, a casa pode ser melhor entendida como um espelho. Ela nos apresenta diariamente e insistentemente a nós mesmos. Diante dessa imagem que a casa projeta, vamos percebendo a passagem do tempo e o ritmo da vida, dando contornos às nossas maneiras e manias, nos tornando curadores, artistas e espectadores de um museu autobiográfico que nos engolfa.

A casa materializa, aterriza e dá o contorno necessário para o infinito que habita em nós. Sem a casa teríamos dificuldade para revisitarmos nossa história, nos reconhecermos, e, principalmente, nos reinventarmos. Sem a casa, viveríamos afogados no efêmero dos pensamentos, percepções e emoções.

Ao trazer estabilidade para a vida, a casa nos oferece a possibilidade única de reunir passado, presente e futuro ao alcance das mãos. Talvez esteja aí sua relação inexorável com a identidade. A casa me orienta quando os desejos e demandas me embaralham os pés.



Diante desse caráter simbólico é natural que ela ocupe papel central em nosso cotidiano e abarque tudo o que nos é necessário para uma vida plena. No entanto, não é isso que vivenciamos atualmente em grandes centros urbanos.

Desde a revolução industrial culturalmente estamos sendo alijados da esfera doméstica. Compramos a ideia de que a vida só acontece em cores pungentes do lado de fora. É lá onde está nosso sustento, nossa diversão e socialização.

Nas cidades a casa se tornou mercadoria, sonho de muitos, privilégio de poucos que em geral terceirizam seus cuidados. Nas cidades, a casa congelou-se em imagens de Pinterest, livre de afetos, como num visite decorado.

Enquanto isso, outras redes sociais e crachás parecem ocupar o papel de espelho, nos oferecendo audiência e carreira, homogeneizando nossas escolhas e afastando-nos das possibilidades de habitarmos outros mundos.

É nesse cativeiro da vida moderna que o colapso civilizatório a que estamos submetidos encontra morada. A pandemia e a crise climática nada mais são do que expressões de uma casa em ruínas. Ao passo que uma nos confina, outra nos desaloja. Não cabemos mais dentro do mundo que criamos.

É em meio a este sentimento profundo de desterro, no entanto, que emerge a possibilidade de retornar. E nunca antes foi tão urgente entender a importância de retornar. Como bem coloca o filósofo e ambientalista indígena Ailton Krenak, “o futuro é ancestral,” e para encontrarmos felicidade e bem-estar precisamos resgatar a essência do morar, nos conectarmos com esse lugar que habitamos e que habita em nós, seja ele corpo, casa ou planeta.

É fundamental abrirmos as portas para novas possibilidades, demolirmos os muros que nos isola e repensarmos, sentados à mesma mesa, sobre o que nos falta, nos sobra e preenche verdadeiramente. Ao longo do processo, fica o convite à reflexão: será que a casa em que vivemos nos abriga?

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