Política e consumo são temas que sempre me interessaram e ganharam ainda mais importância durante meu mestrado em Londres, devido a influência do movimento Ocuppy, manifestação de escala global, organizada de maneira aberta e decentralizada, com uso intensivo das redes sociais que tive a oportunidade de acompanhar de perto neste período.

Foi marcante para mim assistir ao vivo grandes pensadores como Manuel Castells, David Harvey, Judith Butler, entre outros, discursando de megafone na mão na calçada da catedral de Saint Paul para um público jovem e entusiasmado com a idéia de escrever a história e desafiar o alicerce fundamental do sistema capitalista com um slogam simples e direto: We are the 99%.

Mais de uma década depois, aquilo que se apresentava como um marco na história contemporânea pouco chacoalhou o status quo e só serviu de laboratório e balão de ensaio para a acensão da extrema direita no mundo.

Parte do fracasso da onda de manifestações que varreu o mundo em 2011 e alçou a figura do "Manifestante" à pessoa do ano pela revista Times pode ser explicada pela despolitização da esfera pública em favor da cultura do consumo.

Embora inspirados pelo ativismo político dos movimentos sociais, me parece que os jovens que encheram as praças e ruas no início da última década não tinham uma proposta clara de mundo e acabaram deslumbrados com a simples possibilidade de trazer o poder de mobilização e engajamento das redes sociais para as ruas e para a esfera política, sem saber exatamente o que fazer com isso.

O sociólogo alemão Wolfgang Streeck, em seu artigo publicado na revista Piauí em 2013 abordou a desvalorização dos bens públicos em detrimento da vida privada, propondo que a crescente comercialização da vida social tem sido um dos motores do processo de esvaziamento da política.

Ele argumenta que a transformação da cidadania em um ato de consumo individualista não apenas remete o cidadão a um papel passivo, mas também compromete a dinâmica da participação política. Em vez de engajamento e ativismo, o que se observa é um recuo em direção a preocupações mais imediatas e pessoais, ou seja, a responsabilidade coletiva é ofuscada pela busca de satisfação individual.

A dissolução de laços comunitários impulsionada por uma cultura de consumo e individualismo resulta em uma espécie de solidão coletiva. A política, que deveria ser uma arena de deliberação e construção de identidade social, se torna cada vez menos significativa e, em muitos casos, desconectada das realidades vividas pelas pessoas, gerando uma crise de representatividade que serve de combustível para a proliferação de discursos populistas recheados de soluções fáceis para dilemas profundos da vida pública.

A busca por autoexpressão e diferenciação alicerçada no consumo dificulta a formação de uma identidade coletiva e reforça o mito do "self made man" propagado pela teologia da prosperidade que agora é fagocitada pela direita radical personificada na figura de Pablo Marçal, personagem central dessas eleições municipais.

Quando a esfera pública se torna um espaço de consumo, a política passa a ser encarada como mercadoria, e a cidadania, por sua vez, se resume ao direito de consumir.

A responsabilidade de construir uma sociedade mais coesa e sustentável em termos sociais e ambientais nos pertence. Precisamos ser confrontados com a necessidade de não apenas assistir as consequências dessa dinâmica, mas atuar ativamente para reverter a despolitização e fortalecer a cidadania. E não há caminho mais curto para este resgate do que nos reapropriarmos da cidade.

São nos espaços públicos em que podemos experimentar os ventos da civilidade, sair da dimensão ideológica que solapou a política, buscar maneiras de construir laços e responder coletivamente a desafios que, ao contrário do que o próprio mercado afirma, não serão resolvidos a partir da dimensão individual.

Sob os escombros de uma campanha eleitoral marcada por violência, ataques pessoais e performances infames feitas sob medida para rede social, acho que vale refletir um pouco sobre o que nos trouxe até aqui e o que podemos fazer para transformar este cenário.

Comment